EDIÇÃO 2020

A edição 2020 da Bienal de Quadrinhos de Curitiba, cujo tema é “Música”, já bate à porta, com alguns convidados nacionais e internacionais confirmados. Como estamos em clima de retrospectiva, vamos relembrar os feitos deste 2019 antes de te oferecer os “presentes”, que estarão no MuMA, em Curitiba, entre os dias 6 e 9 de agosto de 2020.

No ano que se vai, a Bienal de Quadrinhos de Curitiba viveu uma importante internacionalização. Por meio do projeto “Brasil em Quadrinhos” e com o lançamento do “Catálogo HQ Brasil” em Lisboa, amplificamos a difusão do melhor da produção nacional de quadrinhos no exterior. Uma talentosa geração de artistas foi apresentada a novos e interessados públicos, articuladores e representantes editoriais.

Também na carona da Bienal, Marcelo D’Salete, participante da edição 2018 e vencedor do Troféu HQ Mix de do Prêmio Jabuti por seu épico necessário “Angola Janga”, esteve em Angola, Moçambique e Portugal (em parceria com a livraria Tinta nos Nervos) para falar sobre a criação e desenvolvimento da obra, e também para a oficina “Narrativas Negras em Quadrinhos”. A viagem internacional sem pedágio continuou com a programação do “Brasil Desenhado” no Festival Amadora BD 2019, em Lisboa. Participaram do evento Marcello Quintanilha, André Diniz, André Ducci, Rodrigo Rosa e Lúcio Oliveira.

Estivemos na gringa, mas não nos esquecemos da nossa terrinha. Em 2019, a Bienal de Quadrinhos de Curitiba esteve em Pato Branco (PR), a convite da Inventum- Feira de Ciência, Tecnologia e Inovação. Foram palestras, oficinas, exposições, sessões de autógrafos com 12 convidados nacionais e internacionais, entre eles o britânico David Lloyd, ilustrador de “V de Vingança”, clássica HQ de Alan Moore. Dois projetos da Bienal, de sucesso e altamente democráticos, também marcaram presença: a Bienal Publica! e a Gibikids.

Na Gibiteca de Curitiba, a Bienal fechou a programação do ano com a exposição das artes da publicação “Catálogo HQ Brasil” – que continua em cartaz, aliás. Sem falsa modéstia e com orgulho, vale lembrar que também fomos indicados a onze prêmios na 31ª edição do Troféu HQMIX, nosso Oscar das HQs.

O que vem por aí

De 6 a 9 de agosto de 2020, a Bienal de Quadrinhos de Curitiba monta acampamento novamente no MuMA, para sua 6ª edição. O tema desta vez é música. No Brasil e fora dele, música e quadrinhos sempre fizeram bons duetos, como artes complementares ou inspiradoras uma da outra. As atividades terão a música como referência, seja para as próprias composições, de álbuns e canções, ou como inspiração para capas de discos.

Em HQs, a música aparece como suporte a biografias de cantores e músicos, na voz de personagens, na memória e silêncio dos traços, e em manifestações culturais e sociais. Outro ponto importante é a essência fundamental e transformadora do tema: a música vibra e faz vibrar e este é outro atributo que a Bienal de Quadrinhos pretende aproveitar em sua edição de 2020. Em tempos em que o mundo se mostra mais sombrio, ríspido e silencioso, cantar, dançar e promover encontros e coros, como sempre fizemos, nos parece ser um caminho mais leve e oportuno. A música como celebração, enfim.

Para que tudo isto dê pé, com prazer anunciamos alguns de nossos convidados da edição 2020 – cujo homenageado é Luiz Gê. A curadoria  zelosa está a cargo do compositor e artista multimídia Vadeco; do pintor, quadrinista e ilustrador Fabio Zimbres; e de Mitie Taketani, proprietária da loja Itiban Comic Shop, reduto incentivador da nona arte em Curitiba há 30 anos:

Tanino Liberatore

Foto: Neni Glok

Desenhista italiano, nascido na cidade de Quadri, estudou arquitetura e se dedicou à ilustração. Começou sua carreira nos quadrinhos em 1978, na revista Cannibale, na companhia de Andrea Pazienza e Stefano Tamburini. Foi por lá que desenhou a primeira versão de “RanXerox” (RankXerox), trabalho que ficou mais conhecido a partir de sua publicação na revista Frigidaire, e posteriormente em várias publicações no mundo  – no Brasil, saiu na revista Animal.
O álbum “Video-Clips” (1984) recolhe algumas de suas histórias curtas realizadas entre 1981, quando se mudou para Paris, e 1984, publicadas em diversas revistas. A partir daí, Liberatore se afastou dos quadrinhos e se dedicou principalmente a ilustrações, voltando eventualmente ao personagem RanXerox e a outros projetos. É muito conhecida a capa do disco “The Man from Utopia” (1982), de Frank Zappa. Mas além deste trabalho ele realizou outras ilustrações para discos, e cita a música como grande influenciadora do seu trabalho. Liberatore foi um dos convidados da edição de 2012 da Gibicon (hoje Bienal de Quadrinhos de Curitiba).

Lourenço Mutarelli

Foto: Coletivo ponto 50

Quadrinista, escritor e ator nascido em São Paulo, formado em Belas Artes. Um dos mais celebrados autores de quadrinhos do Brasil construiu um universo particular que lhe trouxe muitos seguidores. Seus primeiros trabalhos foram publicados por Marcatti nos anos 80. Em 1991, lançou seu primeiro álbum, “Transubstanciação”. A partir daí, produziu diversos álbuns, incluindo a trilogia com o detetive Diomedes: “O Dobro de Cinco”, “O Rei do Ponto” e “A Soma de Tudo I e II”.

Em 2002 lançou seu primeiro romance, “O Cheiro do Ralo”, adaptado para o cinema em 2006. Teve mais dois livros adaptados para a sétima arte. Seu mais recente, “O Filho Mais Velho de Deus e/ou Livro IV”, foi lançado em 2018. Paralelamente, escreveu peças de teatro, trabalhou como ator e começou a pintar.

Ele já afirmou: “música é a minha religião”, e que esta arte também faz parte do seu processo de criação. Em 2019, Mutarelli lançou “Capa Preta” (Comixzone), que reúne as HQs “Transubstanciação”, “Desgraçados”, “Eu Te Amo, Lucimar”  e “Confluência da Forquilha”, todas fora de catálogo no Brasil.

Luiz Gê

Foto: Flavio Rocha

O grande homenageado da edição 2020! Luiz Gê foi um dos fundadores da revista Balão (1972-75), periódico que publicou quadrinhos de alunos da FAU e ECA na USP, Luiz Gê explora a linguagem dos quadrinhos em narrativas que misturam aventura, história, política e humor, em diálogo com seu interesse pelas cidades e arquitetura. Entre 1976 e 1984, fez charges para o jornal Folha de S. Paulo reunidas no livro “Macambúzios e Sorumbáticos” (1981). Em 1986, criou e editou a revista Circo na mesma época em que, nas bancas, saíram as revistas de seus colegas de geração, Angeli (“Chiclete com Banana”) e Laerte (“Os Piratas do Tietê”), publicações que ajudaram a formar toda uma geração de leitores e cartunistas.

Seus quadrinhos foram publicados em diversos veículos no Brasil e no exterior e vários álbuns recolheram esse material, como “Quadrinhos em Fúria” (1984) e “Território de Bravos” (1993).

A primeira parceria com Arrigo Barnabé foi a arte para a capa do disco “Clara Crocodilo” (1980), e o próprio LP revela uma afinidade com situações extraídas de histórias em quadrinhos, além do interesse pelo ambiente urbano típico do trabalho de Luiz Gê. Outra parceria se deu com a história “Tubarões Voadores”, que acabou virando o segundo disco de Arrigo, em 1984. Nele, a história original foi impressa e recebeu uma música que seguia a narrativa e o tempo de leitura de cada quadrinho. Luiz Gê também fez a concepção para uma opereta de Arrigo, chamada “O Homem dos Crocodilos”.

Arrigo Barnabé

Foto: Divulgação

Músico, compositor, arranjador, escritor e ator, nasceu em Londrina (PR) em 1951. Logo com sua primeira obra, o disco “Clara Crocodilo” (1980), Arrigo foi recebido como a maior novidade musical do Brasil desde a Tropicália. Isso porque, em suas composições, há uma mistura azeitada de música erudita, ironia e letras ácidas sobre a vida urbana. A aproximação com o dodecafonismo também o destacou como um compositor único, provocador e vanguardista.

A obra de Arrigo Barnabé transita entre o inusitado, o erudito, o pop e o provocativo de maneira criativa e acessível. Delírio e compaixão andam de mãos dadas. Arrigo soa como o encontro entre John Cage e Frank Zappa, e nos faz acreditar na composição musical como forma natural de expressão sonora e visual.

Arrigo escreveu diversas músicas para trilhas de filmes brasileiros, teve influência e participação em grupos e artistas como Itamar Assumpção, Rumo, Premeditando o Breque e Língua de Trapo, parte da turma que ficou conhecida como Vanguarda Paulista. Em 2019, Arrigo lançou seu primeiro livro, “No Fim da Infância” (Grafatório Edições).

Paula Puiupo

Nasceu em 1996 em Lisboa, de mãe paraibana e pai manauara. Atualmente reside em São Paulo. Paula produz quadrinhos, animação, tatua e flerta com a música. Uma das principais autoras da nova geração, tem um trabalho surpreendente, em que desfaz todas as regras narrativas para criar a sua própria – é mais menos como criar nossa vida ao mesmo tempo em que a vivemos. Sua pesquisa tem foco no experimental, em sentimentos de não pertencimento enquanto mulher lésbica e migrante.

Publicou, entre outros títulos, “Eremitério” (2017), “Gume” (2018) e “Maunder” (2019, parte da coleção mini kuš). Participou da antologia “Topografias” (Selo Piqui, 2016). Fez ilustrações para “A Ilha do Tesouro” (Editora Antofágica, 2019). Faz parte do selo de publicações independentes PEPITO CORP ao lado de Adônis Pantazopoulos, Julia Balthazar e Flavushh. Aperta botões no projeto musical FUGA ao lado de Paola Rodrigues.

Grazi Fonseca

Quadrinista, vive em Porto Alegre. Começou a produzir fanzines em 2016: “Hay”, “Mar”, “Tempo, Passatempo” são seus zines independentes.

Em 2018, publicou “Partir” (coleção Des.Gráfica/Mis), finalista do prêmio Dente de Ouro 2019.

Em 2019, participou da revista “Retruco” (independente) e da antologia “Cápsula” (O Quiabo 2019). Seu trabalho explora narrativas experimentais e autobiográficas. Com atenção particular ao ritmo e construídas com poucos elementos, suas histórias ganham dimensão quase abstrata que as aproximam da música. Etérea como o som e gráficas como uma partitura com o preto sólido ocupando lugar protagonista.

Ing Lee

Quadrinista e pesquisadora nascida em Belo Horizonte, graduada em Artes Visuais pela UFMG. Possui deficiência auditiva moderada bilateral, é filha de pai norte-coreano e mãe brasileira. É atuante no cenário de publicações independentes desde 2016 e faz quadrinhos desde 2018.

Co-fundou O Quiabo, selo de publicações independentes e eixo de experimentação gráfica (com Larissa Kamei). Autora de Karaokê Box, elaborado a partir de suas experiências com Karaokê.

Uma das autoras da revista Sam Taegeuk (finalista do prêmio Dente de Ouro 2019 na categoria Quadrinhos). Bebe de influências do cinema do leste-asiático, com enfoque em Novo Cinema de Taiwan, Wong Kar-Wai, Bong Joon-Ho e Naomi Kawase. Em seus trabalhos, propõe-se a trazer questões envolvendo memória, identidade e a melancolia urbana.

João Sánchez

Formado em gravura pela Escola de Belas Artes da UFRJ, trabalhou em Madri de 2007 a 2011 em dois importantes ateliês de gravura da Espanha: Benveniste CP&P, conhecido por suas impressões de grande formato, e Taller Antonio Gayo, especializado em litografia.

Criador do conhecido Estúdio Baren (Rio de Janeiro), ativo desde 2011, mantém paralelamente uma carreira em ilustração e artes gráficas.

Em sua única incursão pelos quadrinhos, produziu com roteiros de Patati o álbum “Couro de Gato, Uma História do Samba” (2017). Com xilogravuras e desenhos derivados desta técnica, o álbum conta histórias relacionadas ao nascimento do gênero musical tipicamente brasileiro. Patati era roteirista e estudioso dos quadrinhos e um defensor do uso de temas brasileiros nas HQs. Faleceu no Rio de Janeiro em junho de 2018.

A Bienal de Quadrinhos 2020 terá patrocínio da Copel, e seguindo sua constante proposta de formação, diálogo e criação, pretende receber mais de 30 mil pessoas durante sua próxima edição, anote aí: de 6 a 9 de agosto de 2020.